Rape Abissal

Vieram, é verdade 
olhos fabulosos de peixes abissais 
como se fossem virgens as linhas de pensamento 
como se a a luz do meio-dia fosse 
opaca como um mineral recente e bruto 
e a verdade da vida, polida e transparente 
para os que levam uma lâmpada na cabeça.

De modo que, agora, é preciso ter luz própria 
amor próprio, quitinete alugada
e um eletricista de confiança. 

Vieram de verbo validado 
por autoridade de rocha petrolífera 
chegaram nadando discretamente 
subiram as tubulações de esgoto 
palavras de ordem disfarçadas de sentido da vida 
vieram como provando seu direito 
de subir no trono a partir do núcleo da terra 
vieram e ficaram entre nós, misturados 
a prova é que fui me convencendo 
de que também sou um peixe, 
nadando contra a superfície 
na obscura inércia desse segredo 
que vem de longe e de antes e ninguém mais sabe 
de que fósseis foram feitas as palavras-chave 
trabalho, dinheiro, produtividade 
de que pedra porosa vertem nossas certezas 
desde quando somos tão frágeis. 

Vieram, é verdade 
e por isso me preocupa 
ser mais um peixe que se afoga às seis da tarde.

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